Tudo que você precisa saber sobre a Eleição Presidencial Francesa de 2017

O ano de 2016 não poderia ter sido melhor para aqueles que acreditam no conceito de estados-nação e que um povo sabe melhor do que ninguém como governar o seu próprio país. A vitória da Brexit semeou o jardim que Donald Trump regou até dar as primeiras mudas. Enquanto a vitória de Trump seguirá sendo a mais importante, o ano de 2017 traz desafios importantíssimos para sedimentar o nacionalismo como a corrente política definitiva da década e colocar o século XXI no rumo certo.

A NACIONALISTA

Marine (esquerda) com a sobrinha Marion Maréchal-Le Pen, a mais jovem deputada da história a ser eleita para a Assembleia Nacional Francesa.

Marine (esquerda) com a sobrinha Marion Maréchal-Le Pen, a mais jovem deputada da história a ser eleita para a Assembleia Nacional Francesa, aos 22 anos.

A primeira batalha do ano acontece no país europeu que mais sofreu com o terrorismo islâmico em 2016: A França. Com sua população composta por quase 10% de muçulmanos – a maior da Europa ocidental -, segundo estimativas, a França é a casa de uma das maiores estrelas do movimento nacionalista europeu, a líder da Frente Nacional (Front National), Marine Le Pen.

Marine é membro do Parlamento Europeu desde 2004 e conselheira regional de Nord-Pas-de-Calais. Uma conservadora nacionalista, possui fortes posições anti-imigração, anti-União Europeia e anti-establishment. Seu pai, Jean-Marie Le Pen, fundador da Frente Nacional, chegou ao segundo turno da eleição presidencial de 2002, quando foi derrotado pelo então presidente Jacques Chirac por incríveis 82% dos votos válidos.

O discurso considerado “extremista” do patriarca Le Pen fez a esquerda e a centro-direita se unirem para derrota-lo, garantindo a esmagadora derrota. Já Marine Le Pen concorreu à presidência francesa pela primeira vez em 2012, quando aparecia no topo das pesquisas para o primeiro turno, com 24% das intenções de voto. Porém, terminou em 3º lugar com 18%, ficando de fora do segundo turno que foi disputado pelo então mandatário Nicolas Sarkozy e o socialista François Hollande, que viria a vencer a eleição.

COMO FUNCIONA A ELEIÇÃO

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O processo de eleição de um presidente na França é muito parecido com o do Brasil. Todos os candidatos disputam o voto popular em dois turnos, com os dois mais votados no primeiro indo ao segundo turno. Caso um candidato ganhe mais de 50% dos votos válidos na primeira votação, é eleito diretamente, eliminando a necessidade de um segundo turno.

O grande número de partidos e o equilíbrio entre eles, no entanto, tornam a possibilidade de vitória no primeiro turno muito improvável – nunca ocorreu desde 1965, quando a França passou a eleger seus presidentes diretamente através do voto popular. O primeiro turno das eleições de 2017 ocorrem em 23 de abril, com o segundo turno vindo duas semanas depois, no dia 7 de maio.

A votação é feita, em sua maioria, com cédulas de papel. O eleitor se dirige a uma cabine isolada com cortina onde preenche sua cédula e a põe num envelope, que é então depositado numa urna de vidro exposta na seção eleitoral. A apuração é feita manualmente. Algumas cidades, no entanto, usam o voto eletrônico, mas são minoria. O voto na França não é obrigatório.

OS ADVERSÁRIOS

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Juppé e Fillon durante debate das primárias republicanas.

Entre o mar de concorrentes, Le Pen terá como principais oponentes os candidatos do Partido Socialista (Parti Socialiste), partido de esquerda do atual Presidente Hollande, e d’Os Republicanos (Les Républicains), de centro-direita. Ambos partidos selecionarão seus candidatos através de primárias abertas.

O primeiro turno da primária republicana aconteceu no último domingo, 20 de novembro, com o atual prefeito de Bordeaux Alain Juppé e o deputado François Fillon passando para o segundo turno após derrotarem o ex-presidente Nicolas Sarkozy entre outros. É a primeira vez que o partido escolhe seu candidato através de eleições primárias.

Já o Partido Socialista organizará primárias pela segunda vez seguida. Em 2012, a votação que terminou com a indicação de François Hollande foi considerada um grande sucesso que ajudou a motivar a base do partido e é tida como uma das razões que levaram o atual presidente a derrotar Sarkozy na eleição geral. As primárias de 2017 ocorrem em 22 de janeiro, com o segundo turno marcado para 7 dias depois.

Sofrendo com baixa popularidade e desempenho fraco nas pesquisas, Hollande ainda não oficializou sua candidatura à reeleição. Caso decida concorrer, travará uma batalha apertada com Arnaud Montebourg (ex-ministro da renovação industrial), Benoît Hamon (ex-ministo da educação nacional) e potencialmente o atual primeiro-ministro Manuel Valls que, segundo as pesquisas, aparece empatado tecnicamente com Hollande.

O CAMINHO PARA A VITÓRIA

Front National, French presidential election campaign meeting, Nice, France - 30 Mar 2012

Le Pen se encontra numa situação similar à de 2012, liderando as intenções de voto para o primeiro turno, com 28%, seguida de perto por Alain Juppé. Hollande tem míseros 9%, número similar aos de outros candidatos à vaga socialista. O independente Emmanuel Macron aparece com 14% e Jean-Luc Mélenchon, do Partido de Esquerda (Parti de Gauche, uma dissidência do Partido Socialista) com 13%. Os números são de uma pesquisa realizada no fim de outubro.

Assim como em 2012, a candidata da Frente Nacional com certeza sofrerá forte ataque tanto da esquerda, quanto da direita. A crise dos refugiados, os recentes ataques terroristas em território francês e as vitórias da Brexit e de Donald Trump, no entanto, fazem os ventos da política soprarem forte na direção de Le Pen, algo com que ela não contava no último pleito.

Uma vez assegurada a vaga no segundo turno, Marine enfrentará forte oposição no segundo turno. Pesquisas a projetam vencendo somente o atual presidente François Hollande no embate direto, enquanto perde para os outros socialistas por média de 10 pontos percentuais e para os republicanos Juppé e Fillon por uma margem superior a 30%. O curto intervalo de apenas duas semanas entre as duas votações também dificulta uma recuperação de Le Pen. No entanto, é de se esperar que a realidade da corrida mude totalmente assim que a campanha começar pra valer.

Suas posições e bandeiras a coloca em rota de choque com o status quo francês e europeu. Le Pen enfrentará todo o sistema político francês, mídia, famosos e boa parte do establishment financeiro na sua busca pela presidência – além das preocupadas forças de Bruxelas.

Suas chances são pequenas e a batalha será cruel. Muitos dizem ser impossível que a nacionalista saia vencedora do pleito, chamando o possível resultado de um “choque”, um “desastre”, uma “tsunami extremista” que iria desestabilizar a França, fazer as bolsas de valores despencarem e causar um caos social jamais visto antes.

Lembra algo? Lembra alguém?

 

Complexo
Fundador e editor-chefe do Lolygon.
CONTATO: complexo@lolygon.moe