298 Para Vencer: E se a eleição brasileira fosse decidida no Colégio Eleitoral?

A vantagem de Hillary Clinton sobre Donald Trump no voto popular fez muita gente olhar com desconfiança para o sistema americano de Colégio Eleitoral. Mas e se o mesmo sistema fosse implantado no Brasil, como seria o cenário das nossas eleições?

Sem discutir a utilidade que o sistema teria perante a nossa disposição geográfica, vamos mergulhar no cenário alternativo. Os 538 votos do Colégio Eleitoral americano são baseados na quantidade de representantes legislativos de cada estado no Congresso Nacional, logo aplicaríamos o mesmo método no Brasil. São 513 deputados e 81 senadores, o que totalizaria 594 votos no Colégio Eleitoral – sendo preciso 298 para garantir a eleição. Nesse exercício, para manter a mesma dinâmica de dualidade, vamos aplicar o sistema somente ao 2º turno da nossa eleição presidencial.

Os estados de maior peso seriam, claro, o trio do sudeste – São Paulo com 73 votos eleitorais, Minas Gerais com 56 e Rio de Janeiro com 49. No nordeste, o principal estado seria a Bahia, com 42 votos, no centro-oeste Goiás com 20, seguido do Pará que lideraria o norte também com 20 e o Rio Grande do Sul com 34 votos, rei na região sul.

Mesmo ganhando todos os 7 estados do sul e sudeste, um candidato não garantiria a eleição, ficando com apenas 277 votos dos 298 necessários – no caminho mais curto, ele ainda precisaria de ao menos um desses estados: Maranhão (21), Ceará (25), Pernambuco (28) ou Bahia (42). Logo, seria possível vencer a eleição ganhando somente 8 dos 26 estados e o Distrito Federal. Caso o resultado final fosse um empate com os dois candidatos contando com 297 votos, seguiríamos o modelo americano com a decisão final indo para o congresso – no caso da nossa terra brasilis imagina a LOUCURA que não seriam as negociações para essa votação de desempate entre deputados e senadores.

Com as regras estabelecidas, vamos recalcular os resultados das últimas 3 eleições dentro do nosso Colégio Eleitoral brasileiro.

2014

Apesar da relativamente pequena diferença no voto popular, Dilma teria sido reeleita em 2014 com ampla vantagem no Colégio Eleitoral, mesmo com Aécio dominando o sul e o centro-oeste, além de levar 3 estados do norte e o grande prêmio da corrida que é o estado de São Paulo e seus 73 votos eleitorais. Assim como foi no voto popular, o estado de Minas Gerais seria decisivo no resultado da eleição – caso ganhasse o estado que governou por dois mandatos, Aécio seria alçado a 314 votos, passando o número mágico de 298 e sendo eleito presidente. Dilma venceu MG naquela eleição por cerca de 560 mil votos, mas ampliou a frente no total de votos devido à ampla margem com que venceu todos os estados do nordeste.

2010

O atual ministro das relações exteriores José Serra teria um destino muito parecido ao de Aécio no Colégio Eleitoral. Dos estados que o mineiro ganhou em 2014, Serra só não teria vencido o Distrito Federal (11 votos). Mesmo assim, uma vitória simples em Minas Gerais daria a eleição para o ex-governador de São Paulo, que ficaria com 303 votos, contra 291 da então ex-ministra-chefe da casa civil do governo Lula. Uma vitória apertada, mas ainda assim uma vitória.

Fica claro que Minas seria um estado determinante no caminho para os 298 votos. Sua posição geográfica única, engalfinhado entre o nordeste e o sudeste e o pêndulo do poder no estado entre PT e PSDB poderia facilmente transformá-lo num “swing state”.

2006

A reeleição de Lula em 2006 seria ainda mais tranquila no Colégio Eleitoral do que no voto popular. Com a popularidade em alta, o presidente venceu Minas com 65% dos votos e o Rio de Janeiro por 69%. Com pouca expressão nacional e sem força no nordeste – a “parede vermelha” do PT – seria difícil Alckmin encontrar um caminho até 298. Porém, com o Colégio Eleitoral, as estratégias de campanha mudam. Talvez se investisse pesado em RJ e MG, onde contaria com o apoio do então governador reeleito Aécio Neves, que venceu no 1º turno numa avalanche de 77% dos votos válidos, a história poderia ser diferente. Ainda assim, seria difícil quebrar a imagem de Lula no norte de Minas entre a classe de baixa renda e Aécio, que planejava concorrer ao cargo dali a 4 anos, poderia fazer corpo-mole no seu apoio à Alckmin. Com Colégio Eleitoral ou sem, a briga de ambições internas do PSDB continuaria minando as chances do partido.

Avalanches

A democracia brasileira é jovem, mas já teria registrado ao menos duas ‘avalanches’ no Colégio Eleitoral a la Ronald Reagan em 1980 e 1984.  No segundo turno de 2002, na primeira eleição de Lula, o petista venceu 25 estados e o Distrito Federal, enquanto Serra levou só Alagoas. Seria uma vitória de incríveis 582 votos contra míseros 12 do tucano.

O predecessor de Lula, Fernando Henrique Cardoso, teria tido também uma vitória avassaladora em sua primeira eleição no ano de 1994. O “pai do Plano Real” venceu também 25 estados e o Distrito Federal, perdendo somente no Rio Grande do Sul para Lula. Seriam 560 votos para FHC e 34 para o petista.

O sistema de Colégio Eleitoral não alteraria o resultado de nenhuma eleição direta para presidente do Brasil desde 1989, no entanto com certeza mudaria e muito a dinâmica de peso entre os estados e as táticas empregadas durante o pleito. Nossa campanha extremamente midiática, muito focada em anúncios e programas de TV seria substituída por uma campanha corpo-a-corpo que movimentaria muito mais os “swing states”.

Na configuração das recentes votações, o nordeste seria a fortaleza petista enquanto o sul seria a “parede azul” brasileira, tendendo a ir para o candidato do PSDB ou outro. São Paulo seria para a “direita” (ou melhor, anti-esquerda) o que a Califórnia é para os democratas nos EUA. Como “campos de batalha” ficariam Minas, os estados do centro-oeste e alguns do norte. Minas seria a nossa “Flórida” e Goiás o nosso “Ohio”.

Os partidos precisariam ter bases sólidas em todos os estados da federação, dificultando a ascensão de candidatos que não fossem de PT, PSDB, PMDB e poucos outros – apesar do sistema eleitoral brasileiro centralizado no TSE e a propaganda eleitoral gratuita dar espaço para um candidato carismático de um partido menor se destacar mais facilmente aqui do que nos EUA.

O sistema também poderia facilmente resultar num cenário onde o presidente-eleito tivesse menos votos do que o candidato derrotado. Pegue 2014, por exemplo. Se Aécio Neves vence por margem pequena em Minas – 12.000 ou 20.000 votos – e Dilma mantém a força que teve no nordeste, ela venceria o voto popular enquanto o tucano seria eleito. O mesmo poderia acontecer caso Dilma ganhasse por pouco em MG e no nordeste e Aécio a massacrasse em São Paulo.

Se o pleito de 2014 já foi conturbado do jeito que foi, imagina assim, com tudo dependendo de um ou outro estado numa disputa literalmente voto a voto?

 

Complexo
Fundador e editor-chefe do Lolygon.
CONTATO: complexo@lolygon.moe