Inside Men: Crime, mistério e política

Em um ano conturbado para o cenário político coreano (com o impeachment da presidente Park Geun-hye) Inside Men produz várias reflexões sobre o mesmo. Baseado em um webtoon e com três horas de duração, há muitos eventos acontecendo neste filme que fala e soa verdadeiro sobre as entranhas da política e corrupção dentro da sociedade coreana. São tantas linhas proferidas com efeitos ambíguos e diferentes pesos, que uma segunda olhada no longa é uma válida indicação.

Como o título deste artigo já aponta, tem-se um filme sul-coreano com uma apresentação lustrosa, expondo a corrupção de alto nível de maneira igualmente brutal e chamativa. Enxerga-se a amargura dos coreanos com o aparelhamento entre grandes corporações familiares (as chaebols), políticos de primeira linha e a mídia. Com sua extensa duração é possível afirmar que o diretor Woo Min-ho encaixa dois filmes em um. Com sua lentidão, o longa vai envolvendo o espectador cada vez mais fundo em sua teia com vários personagens, por exemplo, temos três leads com arcos bem desenvolvidos. E pouco a pouco, Min-ho insere breakdowns com cenas nervosas.

Como tudo começa: Lee Kang-hee, um editor-chefe de um jornal influente alça um congressista, Jang Pil-woo, à posição de candidato principal para presidente usando o poder da imprensa. Por trás disso, há um acordo secreto com o maior patrocinador do jornal, a Mirae Motors (alusão à Hyundai) com uma famigerada lavagem de dinheiro. Ahn Sang-goo, um gangster que apoiou Lee e Jang e resolve os negócios sujos de ambos, principalmente aqueles que necessitam um pouco mais de brutalidade, aspira ganhar mais espaço e apoio dos dois mas um pouco mais à frente ele é traído por ambos que o enxergam apenas como um capanga low-life. Woo Jang-hoon, um promotor ambicioso, começa a investigar a relação entre o congressista Jang e a Mirae Motors acreditando que esta é a sua chance de chegar ao topo. Ao descer às bases do caso, Woo encontra Ahn que planeja passo-a-passo sua vingança. Com isso, há uma guerra entre diferentes escaladas e posições do poder e da política, enquanto esquemas engenhosos são bolados por cada um desses personagens. E quando os vários subterfúgios de cada personagem repentinamente começam a desabrochar, e cada um enxerga o outro como pelo que realmente é, embarcam em uma luta furiosa para desmascarar o outro personagem antes de ser ele mesmo desmascarado ou punido.

Todos os leads são soberbos, embora a menção especial vai para Lee Byung-hun que entrega seu melhor desempenho desde I Saw the Devil como um gangster com um desejo de bravata imprudente e timing cômico, sendo também um indivíduo extravagante e um fixer político. Um papel que rapidamente encoraja a audiência a seguir o percurso tomado por seu personagem. É algo bom para o ator que teve uma série de escândalos reportados e visto que seu filme anterior, Memories of the Sword, deu uma não foi bem nas bilheterias. Vejo inclusive esta atuação dele como uma redenção à crítica, como se quisesse mostrar que ele é um dos grandes atores do cinema coreano. E por falar em grandes atores coreanos, Lee Kyoung-Young não decepciona e faz o político de duas caras comprado e cruel que qualquer diretor e audiência gostaria de ver. Por fim, Baek Yoon-Sik que tem um extenso currículo, entrega um jornalista sádico cheio de palavras dúbias, figuras de linguagem e com um arsenal de manobras para conseguir o seu objetivo.

Em um ponto da película, o promotor Woo recita a Ahn parte da constituição coreana que diz respeito à igualdade de todos os cidadãos — mas já de antemão sabe que, como um outsider e como um ninguém sem conexões, seu currículo excepcional e as conquistas contam pouco nesta sociedade supostamente igualitária. Somente quem está por dentro, um insider, pode avançar dentro do sistema fechado da Coréia, e é só por dentro que o sistema pode ser (ainda que temporariamente) subvertido e exposto. Além dos argumentos trabalhados e a violência que se espera para um filme com gangsters e intriga de poderes, temos sexo à vontade e as bebidas alcoólicas de praxe (soju, conhaques, uísques) — o congressista Jang realiza regularmente jantares para seus amigos, tais ocasiões (cenas) imprimem um nível de deboche e um clima crível de sexo que muitos diretores fantasiam mas poucos conseguem executar. Nós somos tratados não somente com prostitutas topless apresentadas de forma artística que executam atos de sexo quando os homens discutem seus esquemas, mas também uma cena maravilhosamente obscena em que Jang e seus colegas brincam com copo e…bem eu não vou comentar sobre isso (você terá de assistir o filme).

Mas como classificar Inside Men sem dar muitos spoilers? É um conto de vingança lenta, complicada e de justiça que é mais uma mão-por-uma-mão do que um-olho-por-olho.Mas também é um longa alastrado, usando uma trama labiríntica que abrange vários eventos em um período de alguns anos para expor o que um personagem no filme chama de relações profundamente enraizadas e quase invisíveis entre a política, mídia e as chaebols, buscando mostrar como as fileiras fechadas da rede política e de big business da Coréia são quase impenetráveis para qualquer que não é um membro ou um convidado.O filme executa uma síntese de inúmeras tradições dos filmes coreanos com peças de vingança, promotores sem força e a corrupção política já tanto repetida em linhas anteriores. Enquanto outras películas são comprometidas por certos elementos estilísticos ou um senso de imediatismo, a fim de serem mais comercializáveis e acessíveis, Inside Men representa uma narrativa mais crua, fiel e pungente. Não é um filme de ação, considerando que é muito mais maduro e devagar, uma peça que não apenas carrega humor negro, mas também imbuída de rico comentário sociopolítico e relevância. Suas peças constituintes não são particularmente originais, mas o longa consegue reuni-las em uma narrativa galante. Recusando-se a sacrificar seu tom escuro e cínico, ele se eleva acima de filmes com temas semelhantes e se estabelece, para melhor ou pior, como uma crítica poderosa e incisiva da política sul-coreana contemporânea.

O tempo de execução de três horas conduz a uma recompensa satisfatória, uma que não é necessariamente marcada apenas pela violência e derramamento de sangue, mas sim em um estudo sobre o bonding (ligação), descarte e traição entre os personagens, sobre as relações humanas. O enredo pode ter um ou outro plot-twist que combinado a sinuosa trajetória pode desanimar o espectador— mas as performances são tão ricamente concebidas e a edição tão afiada— que usando com confiança todos os bons traços e recursos do cinema o filme é lídimo.

Veja o trailer.

J.J. Mann
No Loly, cobre cinema asiático com ênfase na Coréia. É também um super entusiasta da história do país, com uma obsessão que vai um pouco longe demais. No Twitter, é responsável pelo perfil de paródia do eterno líder, Kim il-Sung. 언플장난아니야!