Ainda não há provas de que a Rússia interferiu na eleição americana, mas a mídia continua agindo como se houvesse

Fundo Branco

A última sexta-feira deveria ter sido o dia decisivo para esclarecer de uma vez por todas o suposto papel do governo russo no hack do diretório do partido democrata durante as eleições americanas de 2016. A data marcou a divulgação de um relatório de 25 páginas elaborado pelo diretor de inteligência nacional (DNI) – que chefia todas as agências de inteligência do governo -, detalhando a investigação que chegou à conclusão de que a Rússia não só executou os hacks, como o fez para ajudar Donald Trump a ser eleito.

O documento, porém, não prova absolutamente nada. É apenas uma coleção de afirmações previamente divulgadas e envolve coisas como a interceptação de comunicações de integrantes do governo russo “comemorando” a vitória de Trump – o que seria algo natural dado a proposta de aproximação entre os dois países que o então candidato defendia, ao invés da retórica belicista de Clinton – e várias páginas detalhando a cobertura do conglomerado de mídia estatal russo RT do movimento Occupy Wall Street em 2011, por alguma razão.

Se você esperava que a “arma do crime” fosse revelada, não foi dessa vez. A desculpa permanece a mesma: “divulgar as provas que temos comprometeria o andamento da investigação”, em outras palavras, mesmo que eles tivesse uma prova cabal, não poderiam divulga-la. O problema é que existe uma discrepância gigantesca entre o tom que o governo Obama e a mídia liberal  usam na sua retórica histriônica contra a Rússia e a fundamentação factual da suspeita.

A resposta do governo, coincidentemente, é a mesma usada a campanha inteira por Hillary Clinton ao acusar Trump de contar com a ajuda de Putin nas sombras: “Todas as 17 agências de inteligência do governo americano chegaram à mesma conclusão” – de que o Kremlin agiu para interferir na eleição americana. Sim, “todas as 17 agências” incluindo a guarda costeira americana e o departamento de energia, dois órgãos claramente com a função de conduzir uma investigação sobre cyber-terrorismo. Ainda assim, nenhuma prova concreta foi divulgada.

A frase “todas as 16 agências de inteligência” também foi usada por Colin Powell para defender a invasão do Iraque em 2003 perante a ONU, citando que todos os órgãos de inteligência do governo corroboravam a informação de que Saddam Hussein estava construindo armas de destruição em massa, acusação que se provou falsa após a guerra.

Mas isso não impede os mesmos jornalistas e personalidades da mídia que passaram meses comparando Trump a Hitler de reportar as afirmações do governo como o mais absoluto dos fatos, sem demonstrar nenhum ceticismo ou vontade de investigar a fundo. A narrativa anti-russa vem sendo executada com a mesma sincronia que outros talking-points do governo Obama e a da campanha de Hillary, com a mensagem clara e absoluta sendo replicada em toda a mídia com uma rapidez e intensidade impressionantes. A mesma mídia que chora um perigo imaginário que o governo Trump representará à liberdade de imprensa, age como mega-fone das narrativas governistas sem titubear.

A desconfiança fica ainda maior quando o objetivo por trás disso é óbvio e gritante: Deslegitimar a vitória e presidência de Trump. É por isso que apesar da blitz midiática e política, apenas um terço dos americanos acreditam que a Rússia interferiu na eleição de 2016. Ao invés de reconhecer que a estratégia não está funcionando, o conluio mídia liberal e partido democrata intensificaram o tom. O resultado é uma histeria capaz de fazer jornalistas pomposos e comedidos se expressarem de maneiras que fariam Alex Jones ficar com vergonha alheia.

O resultado disso tudo foi um relatório cuja superficialidade ninguém sabe se é devido à existência de provas absolutamente arrebatadoras ou fruto da total inexistência delas. No momento, só sabemos que as mesmas pessoas que te disseram que Hillary Clinton tinha uma saúde de ferro de que foram expostas coordenando artigos e coberturas diretamente com o diretório do partido democrata querem que você acredite na primeira possibilidade.

Complexo
Fundador e editor-chefe do Lolygon.
CONTATO: complexo@lolygon.moe