Yuna Kim: Um ode à Perfeição

Ela é mais conhecida pelos seus apelidos Yuna Queen ou Ice Queen. Mas do mesmo modo como “a garota que carrega o peso de toda uma nação nos ombros.” E toda vez que entrou no gelo entregou performances de tal beleza artística, carisma e esplendor que talvez nunca poderão ser imitadas. Ela é um milagre moderno corolário do arranjo entre arte e esporte, da conjunção entre requinte e destreza.

E não apenas no meu não tão humilde ponto de vista mas levando outrossim um pluralismo de opiniões,ela é uma das maiores personalidades asiáticas e atleta de todos os tempos. A respeito de quem estou escrevendo?! Esta seria a Yuna Kim (김연아). E você leitor, já ouviu falar dela ? Pois a forma mais simples de resumir é ela é uma all in one e professional skater.

The icon, the brand, the star

Vamos começar pelos números, Shall we ? Em todas as competições oficiais de patinação que participou ela esteve no pódio. Nas olimpíadas de Vancouver ela quebrou três recordes mundiais durante a competição: ambos os programas SP e LP (curto e longo) com a pontuação mais alta para uma única mulher, que combinado resultou na maior pontuação de patinação artística até os dias atuais — 228,56 pontos. Suas especialidades ? O triple lutz seguido de um triple toe-loop que é uma das combinações mais complicadas de executar no gelo, mas mesmo assim ela é a especialista. A primeira patinadora a conseguir um grand slam sob o atual sistema de pontuação da ISU. Ela é a única patinadora a conquistar ouro em todos os principais títulos de campeonatos da ISU, incluindo o Junior Grand Prix Series e Final, Junior World Championship, Grand Prix e Final, Four Continents, World Championship e Jogos Olímpicos de Inverno. A Yuna tem contratos com diversas marcas possuindo uma das maiores fortunas do mundo esportivo e para completar: Goodwill Ambassador da Unicef.

Se,aos 19 anos, nas Olimpíadas de Vancouver, Yuna quebrou recordes e já se juntou às lendas do esporte, ela não parou por aí. Todas a subsequentes competições de patinação a partir de 2010, ela ficou entre o primeiro e segundo lugares. Nunca a combinação entre atleta e artista foi mais perfeitamente equilibrada do que com a coreana e fez jus ao nome do esporte. Essa conquista sozinha, a diferencia de muitos dos grandes profissionais, especialmente porque eles tinham que fazer muito menos elementos definidos e têm geralmente um tempo muito maior à disposição do que em um programa de quatro ou sete minutos como ela.

A partir de 2009, a era Yuna Kim se estabelece.

Para se ter uma idéia, a face de Yuna é tão onipresente na Coréia que até hoje vende de sistemas de ar condicionado da Samsung e LG até carros, cervejas, calçados e cosméticos. Ela publicou dois livros (Seven Minute Drama’s Kim Yu-na e Like Kim Yuna), gravou canções com astros do K-pop e ganhou um programa de televisão que consistia em um show de variedades de patinação que foi ao ar na SBS. Em 2015, ela ganhou cerca de 50 milhões de dólares em contratos esportivos e publicitários sendo mencionada na lista Forbes das atletas mais caras do mundo — uma quantia inaudita para uma patinadora -, mas seu poder de ganhar só é compensado por sua generosidade. É um culto de personalidade diferente de outros esportistas que crescem seus egos demais. Ela, pelo contrário, sempre preocupou-se em ajudar suas colegas de equipe e na importante tarefa de representer a Coréia nas pistas. Em 2016, por exemplo, ela doou cerca de 200 mil dólares a instituições de caridade e investiu 300 mil dólares em uma iniciativa para ajudar patinadores coreanos a alcançarem seus sonhos. Ela é uma constante doadora, em 2015 com a passagem do tufão no Nepal ela também doou 150 mil dólares para ajudar os desabrigados e necessitados. E em 2011, ofereceu todos os seus ganhos em competições para os afetados no terremoto no Japão.

Yuna é a epítome da perfeição em carne e osso. Se o assunto é talento e adjetivos, o nosso sujeito já está definido. Ela se envolve com a música com a sofisticação de uma primma ballerina, atacando os minutos de apresentação com tanta leveza, diligência e crueldade de uma atleta tão dominante e segura de si que quebra a vontade de seus concorrentes. Mas por outro lado, a patinação artística não é como o futebol, o futebol americano, o beisebol, o basquete e outros esportes. Normalmente você se dedica, espera muito tempo para ser reconhecido, gasta um monte de dinheiro de sua própria família também. É complicado. Você tem sorte se um patrocinador bater à sua porta. É ainda mais difícil analisar que anos e anos de treinamento são comprometidos por juízes tendenciosos. E em um país que não possuía tradição alguma no esporte, ela não só foi a primeira a alçar voos altos como a conquistar duas medalhas olímpicas, sendo uma delas de ouro. Um tremendo de um feito! Até a medalha de ouro, o acúmulo olímpico foi alimentado por uma imensa antecipação com o surgimento de Yuna, visto desta forma, ela não só precisava ter o dom como também ser fria como o próprio gelo e ainda lidar com fervor nacionalista da Coréia que é forte. Ela não foi só ganhando competições de patinação artística ao longo dos últimos anos, mas também os corações do público com seu compromisso, humildade e capacidade de permanecer calma sob pressão.

Sochi 2014: Pressão e drama

Em 2014, nas olimpíadas de Sochi, muitos não acreditavam que ela conseguiria repetir a dose, visto que alguns exames vazaram na mídia que comprovaram uma lesão em seu pé. E é preciso uma marca incomum de espírito de competição, nobreza, coragem e ética de trabalho para voltar e defender uma medalha de ouro em qualquer atividade, mas que é extremamente raro em patinação artística. O que acontece quando a perfeição é esperada? E o que ocorre quando ela já foi alcançada?

Em muitos aspectos, parecia que Yuna não poderia sair vitoriosa nos Jogos Olímpicos de Sochi, mas mesmo assim ela veio seguindo próximo do primeiro lugar. Em um dos maiores escândalos do esporte, devido à pressão de casa, o IOC e o ISU permitiram que a corrupção tomasse conta e no programa final, mesmo Yuna tendo executado um programa melhor e sublime que a russa de Adelina Sotnikova, a última levou o ouro sem sequer ter ganho pódio algum em toda sua carreira profissional. Considerando que a coreana fez maior maior uso de gelo e quase não teve tempo para descansar, sua seqüência de footwork (passos) deveria ter sido altamente aclamada assim como os seus landings (aterrissagens) que foram notavelmente mais precisas que a da russa. Porém, isso foi rapidamente explicado por parte dos nomes que compunham os jurados: Yuri Balkov, da Ucrânia, foi reintegrado como juiz após uma suspensão por tentar corrigir a competição de dança de gelo nos Jogos Olímpicos de 1998. E Alla Shekhovtsova é a esposa do diretor da federação russa de patinação artística. Easy peasy, right ? Nevertheless, agora em 2016, a federação russa teve alguns de seus atletas banidos e medalhas devolvidas e resultados de exames falsos foram divulgados e o nome de Adelina Sotnikova está incluso. Isto leva a entender que no fim das contas a medalha irá para Yuna. Pelo menos é o que nós gostaríamos.

Injustiças não são inéditas na patinação artística. Ilusões de impropriedade são ainda mais comuns em uma arena repleta de política e paranóia. Sempre foi o custo de fazer negócios em um esporte dependente de julgamento subjetivo (aliás, de qualquer esporte deste tipo). No entanto, isso não torna o resultado da competição fácil de engolir. E tanto não foi que o estardalhaço causado foi enorme. No mesmo dia, uma petição na Change.org foi criada exigindo uma investigação sobre o ocorrido e em menos de 24 horas juntou 2 milhões de assinaturas/aplicantes do mundo inteiro.

E para não achar que foram somente os fãs que reagiram desta forma com a tremenda injustiça feita com a coreana, eis aqui, trechos de falas de esportistas e de analistas: até mesmo a medalhista de ouro Tara Lipinski disse que a patinação de Yuna foi melhor que 2010 e ainda sim recebeu uma avaliação abaixo da sua real magnitude. E ela não estava sozinha, os mesmos comentários foram feitos em emissoras como BBC, CBC e outras. Outra famosa patinadora, Michelle Kwan disse, Absolutamente deslumbrante. Ela patinou de seu coração. Em 2010 eu senti que ela patinou para o seu país. Mas agora, esse desempenho é tão íntimo. É como uma patinagem para si mesma. Só de estar na audiência para vê-la eu me senti sortuda” . E Matt Gunman da ABC adicionou: A Yuna patina com um nível supremo de confiança inigualável pelos outros da competição”. Para Robin Cousins, medalhista olímpico de patinação artística em 1980, “Ela é a grande dama de patinação, uma bela mulher dentro e fora do gelo, ela tem um estilo gracioso e clássico. Há algumas outras patinadoras excelentes, principalmente as russas, mas elas são em maioria crianças. Esta competição é sobre uma mulher contra as meninas e eu escolho a mulher como vencedora.”

Uma das melhores reações foi do jornalista Bill Plaschke:

E o próprio Google, por cerca de uma hora, deixou a página de Yuna deste jeito:

E apesar de tudo isso, ela (publicamente) levou o golpe com classe. Nós que acompanhamos a trajetória dela é que ficamos ensandecidos com o absurdo que ocorria em frente aos nossos olhos. Pois depois de uma performance como a abaixo, fica difícil aceitar qualquer outra coisa. O próprio vídeo desta apresentação que incluiu comentários de narradores em inglês, francês, alemão,espanhol e japonês deixa isso bastante evidente.

2015–2016: Jogos de Pyeongchang, ONU e IOC

Após as olimpíadas, ela descansou por alguns meses e logo retornou ao batente ajudando a treinar a equipe coreana que disputará os jogos de inverno em Pyeongchang, em sua terra natal. Além das doações já reportadas nos parágrafos anteriores, inaugurou os primeiros centros de treinamento e mantém-se ativamente no papel de impulsionar o esporte que tanto praticou às estrelas. Pyeongchang é um projeto importante e enorme para a administração coreana. Eles desejam mostrar ao resto do mundo, que podem lidar com um evento tão colossal de esportes como fizeram em 1988, e que sobretudo, a Coréia é o país do futuro e da tecnologia. Portanto, não existia uma opção melhor que a Yuna. E ela ainda estaria ajudando e tornando a cultura de patinação mais rica.

Em 2015, Yuna Kim fez um tour de despedida na Ásia com todos os ingressos vendidos em questão de minutos. Tornou-se embaixadora oficial dos Jogos Olímpicos de Inverno em Pyeongchang. E embaixadora promocional para os Jogos Olímpicos da Juventude de Inverno em Lillehammer, na Noruega que ocorreu em 2016.

No ano de 2016, além de embaixadora na Noruega, a atleta foi agraciada pelo comitê olímpico coreano com a nomeação de Sports Hero Icon. Dos 54 candidatos, os seis finais foram selecionados por meio de avaliações e voto popular do qual ela saiu vencedora. Ela também foi a host do All That Skate. Seu par de patins originais, foi classificado como um bem cultural oficialmente designado pela Administração do Patrimônio Cultural da Coréia. E acredite ou não.. ela também ajudou a divulgar a Rio 2016. E no mais continuou a promover os andamentos de Pyeongchang.

O legado e o futuro

Quando a coreana se aposentou após seu polêmico segundo lugar nos Jogos Olímpicos de 2014 em Sochi, muitos acharam que era um fim abrupto de uma brilhante carreira para uma atleta de 23 anos. Acontece que os fãs e a mídia não foram os únicos que se sentiram assim, atletas diversos expressaram sua solidariedade à lenda coreana e a grande decepção com sua decisão de se aposentar.

A primeira vez que foi possível notar a habilidade de Yuna de comandar uma arena foi no mundial de 2007 em Tóquio, onde ela venceu o programa curto antes de terminar em terceiro atrás de Miki Ando e Mao Asada. Kim evoluiu de forma rápida de uma jovem patinadora precoce em uma força motriz no esporte. Ela tem um estilo naturalmente lírico. E se analisarmos o trabalho de outras patinadoras como Daisuke Takahashi, Yuzuru Hanyu e Midori Ito, ao longo dos anos, ela está no topo da lista em termos do quão rápido aprendeu e foi subindo de qualidade. Em parte, o motivo do sucesso de Kim é sua capacidade de interpretar a música com seus programas. Ela ouve música em um nível que raramente as pessoas fazem e nunca está fora de seu ritmo e dos passos e manobras— NUNCA. É como se estivesse intrinsecamente dentro dela.

O inesquecível programa curto de Yuna para um medley dos filmes de James Bond nos Jogos Olímpicos de Vancouver 2010 foi um momento decisivo em sua carreira. Com tamanha inspiração e precisão quase cirúrgica, ela fez uma Bond girl primorosa. Naquele momento, você não sabia qual era a índole daquela personagem no rinque de patinação, você não sabia se ela era boa ou má. Ela conquistou a audiência pelo poder da incerteza, da dúvida e a cada novo audacioso movimento criava uma nova expectativa.Ela poderia fazer uma vítima ou então sacar uma arma imaginária em uma espécie de femme fatale. Isso adicionado aos movimentos é de alucinar qualquer juiz.

O memorioso legado de Yuna Kim, a tão mencionada performance de 2010.

Vou explicar isso de forma mais aprofundada…Yuna foi e será lembrada como uma patinadora verdadeiramente sui generis — ela tem essa interpretação intocável — como a interpretação e interação com a música que ela escolhe para seus programas — cheia de coreografia e timing do início ao fim (talvez, exceto Mao, todos os outros patinadores como Sasha Coen e Julia Lipnitkaya gastam muito tempo na introdução antes de começar com os elementos — a Yuna geralmente começa sua choreo e vai direto para o primeiro triple-triple ou toe usando bastante do gelo — agora isso é o que você chama de um estilo árduo e fatigante) , seus elementos estão perfeitamente em sincronia com a música — e Yuna capta a própria essência das emoções por trás das notas. E tudo isso só vem depois de suas consistentemente fortes técnicas de salto baseadas em livros, uso rico e limpo / profundo da borda durante as etapas, conforto geral no gelo e habilidades de patinação. Ela nunca repetiu nenhum de seus programas desde que ela entrou em competições sênior — e cada vez que ela coloca ou faz um novo personagem com a música, ela tem a magia de fazê-la ganhar vida sendo que ela própria aproveita da sinergia que a música cria com seu desempenho. Ela se torna a música. E a música se torna ela — É como se ela estivesse DESENHANDO a música para o público, como aquelas caixinhas de música que tem uma bailarina, só que em 3D. E desde Vancouver ela evoluiu para o próximo nível neste aspecto.

Uma das marcas de Yuna é sua incrível velocidade. Mas sua especialidade no aspecto técnico são os saltos — se você questionar um especialista em patinação, ele certamente dirá que os saltos de Yuna são tão claros (entrada, uso de borda, etc …) que não é preciso nenhum esforço para reconhecer qual salto é qual. Suas aterrissagens não são bruscas ou fora do eixo, o movimento termina como iniciou. Isto demanda uma combinação entre técnica e controle de movimento absurda e ilógica! Pois os saltos de Yuna começam em uma velocidade louca para a primeira fase de transição da distância indo para os saltos, uma entrada correta / limpa (uso da borda direita antes da decolagem — por vezes, borda de fora para 3Lz, apenas dedo do pé para 3T, por exemplo), sem pré-rotação (ela começa a girar no ar, após a decolagem), com uma grande posição do eixo no ar (simetria entre o rosto e o tronco — que significa que a cabeça não está para baixo ou de lado e sim, reta em conformidade com a linha do tronco, sem torção do tronco superior — torso reto) e pouso limpo. As seqüências de passos de Yuna são coisa de outro mundo similarmente… basta observar as seqüências de passos em Adios Nonino (programa livre) que foi considerado o mais difícil e tecnicamente desafiador de todos os programas de Yuna no passado. Mas a graça entre trasformar arte e esporte em uma coisa só, ocorre apenas porque Yuna o faz parecer tão fácil e effortless. O footwork de Yuna e o uso profundo da borda estiveram sempre no nível superior. Traduzindo: … não são muitos patinadores que podem fazer os saltos by the book e com improvisações como ela faz e é por isso que muitos falham…

Combinação de um triple lutz triple toe loop frame-by-frame.

Uma das boas recordações de Yuna além de seus pódios e medalhas é a sua rivalidade com a japonesa Mao Asada. Ambas com a mesma idade e um nível técnico próximo, sempre houve um debate sadio entre quem era melhor, com a coreana conquistando mais pontos e medalhas que a japonesa. Alguns dizem que a Mao encabeça a Yuna no departamento de arte, mas alguém poderia realmente imaginar a japonesa, e outros patinadores veteranos que interpretando Adios Nonino (muito difícil de interpretar tango pela maneira) como Yuna fez? E quanto a Danse Macambre? Send in the Clowns? O que Asada compartilha de forma igual é aquela precisão cirúrgica de livros didáticos de aplicação do esporte. Mas é possível dizer que por vezes, ela conseguiu superar a rival coreana no quesito.

Na minha mente, ela é o tipo de talento como um Lance Armstrong (sete vezes campeão do Tour de France — subtraindo os anabolizantes) ou um Kurt Browning (quatro vezes campeão mundial de patinação). Um indivíduo transformador para o esporte. Um alguém que trouxe dias de glória de volta para o esporte. Não apenas para ela, mas para todos nós. Ela restaurou o status do esporte. Ela é o tipo de estrela que refez o ciclo de patinação artística para o mundo inteiro, trazendo uma audiência e um grau de interesse nunca antes computados. Apresentando-se na Ásia em grandes produções gloriosas,cantando e patinando ao mesmo tempo. Em atos ambiciosos como sua turnê de shows em lugares como Toronto e Macau.

E agora, com um ano restando para as Olimpíadas de Pyeongchang em 2018, fica aquela pergunta no ar: – Será que ela poderia ser convencida a retornar e tentar agigantar seu legado já incrível ? Se os jogos fossem em qualquer lugar além da Coréia do Sul, eu diria que isso seria duvidoso. Mas com a situação sendo a que é, eu acho que talvez poderemos ter uma surpresa de Yuna Kim participando na competição. Do contrário,isto seria muito cruel para todos os amantes da arte e do esporte.

J.J. Mann
No Loly, cobre cinema asiático com ênfase na Coréia. É também um super entusiasta da história do país, com uma obsessão que vai um pouco longe demais. No Twitter, é responsável pelo perfil de paródia do eterno líder, Kim il-Sung. 언플장난아니야!